Depressão - Vandérleia Gonçalves

O mundo estava louco. Um caos. Natacha sofria de depressão. Mas para os outros isso era frescura. Para chamar atenção. Alguns até tinham a coragem de dizer que era falta de homem, ou de uma louça para lavar. Natacha sofria de depressão. E todo dia para sair do quarto. De casa, era uma luta. Os poucos sorrisos que esboçava eram mais falso que nota de três reais. E ninguém percebia. E os poucos que sabiam, diziam que era algo passageiro. Coisa de momento. A nova moda entre os jovens. Natacha sofria de depressão. E tudo o que queria era um abraço, uma palavra de carinho, um gesto que demonstrasse que ela não estava sozinha. Mas tudo o que vinham eram criticas, repúdios, broncas. Era tachada de metida. Antissocial. Porque não foi naquela festa. Porque não deu moral para o garoto novo da faculdade. Porque não foi dar um olá para as amigas da mãe. Ficou trancafiada no quarto, não fazendo nada. Era a decepção da família. Não tinha amigos. Natacha sofria de depressão. Mas ninguém acreditava. Afinal, quem é triste e tem depressão não posta foto no Instragram, e nem tem conta no Facebook. Natacha sofria de depressão. Mas não tinha apoio, e no fim do túnel nunca via uma luz, uma solução. E toda noite antes de dormir, cortava os pulsos, para amenizar as dores da alma. Natacha sofria de depressão. E uma noite decidiu não ser mais um fardo. Colocou Chop Suey para tocar no modo repeat e sentou no peitoril da janela. Não deixaria uma carta, afinal ninguém precisava saber o porquê de sua decisão. Natacha pulou da janela do 6º andar. Natacha tinha só 22 anos, quando decidiu se matar. Natacha virou só mais uma na pesquisa de suicidas jovem. Uma estatística. Um estudo de caso para um psicólogo renomado. Natacha tinha depressão. E ninguém se importou. Foi mais uma suicida, uma manchete no jornal e não passou disso. O mundo continuou louco. Um caos.

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