Eu não me enxergava na revista.

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Eu não me via nos grandes textos que falavam de amor. Neles só mulheres brancas amavam. Só elas eram comuns. Para alguns poetas, eu era algo incomum. Exótica. Não era amada, só servia para o prazer. Mas como eu era para você? Como você me via? Você dizia me amar, mas só me procurava nos fins de semana de tédio. Dizia me amar, mas só nos dois podíamos saber sobre o nosso romance. A nossa história de amor. “O que ninguém sabe, ninguém estraga”, era o que você dizia.
Seus amigos diziam que só as outras mulheres eram para casar. Nas revistas das bancas, não tinha espaço para quem era de cor. Para a televisão, minha beleza era rara. Para você eu era linda, mas não podíamos sair juntos. Ser vistos juntos. “É para ninguém estragar o que temos.” Depois você me beijava, me levava para a cama e de lá me levava até o céu. Venerava meu corpo. Na cama éramos ying e yang. Leite e café. Dois amantes. Dois apaixonados. Mas fora dali eu era apenas uma conhecida. “É para ninguém saber e acabar estragando.” No grande texto que falava de nosso amor, escrito por um poeta qualquer, eu era a parte erótica. A parte que dava o prazer e alegrava seus dias, para que no fim você se apaixonasse pela mocinha. Pois era com ela que você se casaria. Era ela que você mostraria para o mundo e ninguém no mundo faria nada para estragar.
Meu bem, na sua vida eu era figurante. Eu não me enxergava nela, assim como eu não me enxergava na revista.

Por- Vanderléia Gonçalves 

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